Foto da série O Paciente. Crédito: © 2024 FX Productions, LLC. All Rights Reserved.

O Paciente

Terapia never ends ou como faz para seguir?

Segundo o neuropsiquiatra Viktor Frankl, é nosso papel nos apropriarmos de nosso destino, ou aceitando-o ou formatando-o, dando sentido às nossas vidas ao sermos os agentes ativos de transformação da nossa existência. O neuropsiquiatra, famoso por seu bestseller internacional Em busca de sentido, foi o criador da Logoterapia, uma abordagem de tratamento que enfatiza a importância de encontrarmos nosso sentido apesar dos pesares.

“Podemos dar sentido à vida não só ao sermos ativos respondendo as suas questões concretas, conscientes de nossa responsabilidade. Podemos satisfazer as exigências da existência não só como as pessoas que agem, mas também como pessoas que amam: em nossa entrega amorosa ao belo, ao grandioso, ao bom.”

O médico acreditava que todos tínhamos a liberdade de escolher como agir diante das adversidades – o psiquiatra era sobrevivente de um campo de concentração nazista, no qual estudou o comportamento de seus pares reféns – e que essa liberdade de escolha seria toda essência da força humana.

Pois a obra de Viktor Frankl é uma das bases teóricas – sim, tem isso – da série O Paciente, protagonizado pelo ator Steve Carell e produzido pela FX, que há um tempo ganhou estreia e destaque no Star+ (Disney). A produção traz o personagem de Carell numa atuação surpreendente, através da qual ele dá vida ao psiquiatra Dr. Alan Strauss – contém spoilers -, que é sequestrado por seu paciente Gene (Domhnall Gleeson, do maravilhoso Questão de Tempo) para que o ajude a parar de matar.

Foto da série O Paciente. Crédito: © 2024 FX Productions, LLC. All Rights Reserved.
Foto da série O Paciente. Crédito: © 2024 FX Productions, LLC. All Rights Reserved.

A série perpassa questões clássicas como acordo terapêutico e relação terapêutica; acho que vai em alguma linha da terceira onda, mais pro lado da Terapia Comportamental, Terapia Cognitivo-Comportamental; pincela alguma coisa de Psicologia Positiva e, lógico, Logoterapia – inclusive chega a citar a obra de Viktor Frankl, que me deu vontade de ler, depois desisti -; e vai costurando uma narrativa que, metaforicamente, é a própria terapia em si.

Gene, que na verdade é Sam, revela-se um “serial killer” que mata pessoas que desafiam sua inteligência e o humilham – como fazia o pai, que batia nele quando criança -, e “contrata” (sequestra) o seu psiquiatra para uma imersão através da qual ele pretende controlar as compulsões de matar.

Foto da série O Paciente. Crédito: © 2024 FX Productions, LLC. All Rights Reserved.
Foto da série O Paciente. Crédito: © 2024 FX Productions, LLC. All Rights Reserved.

A série se desenvolve ao longo de dez episódios e é toda ela como se fosse um diálogo entre o paciente e o terapeuta, com diversos atravessamentos de cenas para contextualizar algumas questões e alguns flashbacks – quase todos dentro da cabeça do terapeuta, que é o refém. Alguns desses cross overs são a própria terapia internalizada do psiquiatra. Essa fala (escrita) foi muito nerd da minha parte. Sou dessas.

A coisa vai num crescente de aprofundamento – controverso dizer isso – sobre traumas, gatilhos, compulsões, abstinência, lapsos, recaídas etc. – toda trajetória da akrasia* – até a catarse terapêutica e cinematográfica em que ele mata o terapeuta (avisei que teria spoiler). Idealmente, a solução mais otimista (e nada realista) seria ele ter alta e vidas que seguem. Mas o que acontece é que ele segue sendo um psicopata, com alguns “improvements” de conduta, mas sempre doente. Vida real raiz.

Aí no fim, fim, parece que os produtores se arrependem do final infeliz já determinado e o assassino (paciente) se “entrega” à sua mãe, uma personagem bem mais ou menos, em uma espécie de internação domiciliar tão doentia e inútil quanto a sua conduta.

Essa série, apesar da pegada thriller, da escolha pop do elenco, e do plot trivial, sem contar que é totalmente irrelevante, tem diálogos tão bonitos que achei que poderia compartilhar.

O destino, aquilo que acontece a nós, pode, em todo caso, ser moldado – de uma maneira ou de outra. “Não há situação que não possa ser melhorada, ou pela realização ou pela tolerância”, diz Goethe. Ou mudamos o destino – se for possível – ou o acolhemos de boa vontade – se for necessário. Interiormente, podemos em ambos os casos, crescer com ele, com o infortúnio.

Em tempo: Pode-se dizer que Akrasia, filosoficamente falando, é como se fosse uma espécie de irracionalidade, de falta de controle sobre si devido à “fraqueza da vontade”. Ou seja, uma “vontade” dicotômica, na verdade duas, a racional e a que está em operação em função de esquemas ativados por algum gatilho. 


Informações básicas

Sobre: Um terapeuta judeu, Dr. Alan Strauss (Steve Carell), é sequestrado por um paciente, Sam Fortner (Domhnall Gleeson), que se revela um serial killer. Durante o cativeiro, Alan é forçado a ajudá-lo a controlar seus impulsos homicidas. A série explora temas como luto, fé e a busca por significado, com referências à logoterapia de Viktor Frankl.
Nome original: The Patient
Ano: 2022
Direção: Chris Long
Roteiro: Joel Fields, Joe Weisberg
Elenco Principal: Steve Carell, Domhnall Gleeson, Linda Emond, Andrew Leeds, David Alan Grier
Nacionalidade: EUA
Gênero: Suspense psicológico
Duração: 10 episódios de aproximadamente 30 minutos
Link para o IMDb: https://www.imdb.com/title/tt15574312/

Imagens: © 2024 FX Productions, LLC. All Rights Reserved.

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