Foto do filme Wonderland. Crédito: Divulgação / Netflix

Wonderland

O vazio de um mundo de regras invertidas

Se você pudesse congelar a vida daqueles que ama para sempre tê-los consigo quando estiverem longe, você faria isso?

Em Wonderland (원더랜드, 2023), ficção científica dramática escrita e dirigida pelo cineasta sul-coreano Kim Tae-yong, é possível ter para sempre quem amamos. O filme se passa em um futuro próximo no qual, em uma realidade virtual contratada, podemos nos manter conectados aos nossos entes queridos quando eles já não estão mais conosco.

O título do filme já evoca um clássico da literatura: Alice in Wonderland (1865), de Lewis Carroll, no qual Alice cai em um mundo fantástico e ilógico, cheio de aparências enganosas e regras invertidas. Tal como o “país das maravilhas”, a “wonderland” do filme apresenta uma realidade alternativa sedutora, mas distante da vida real e de suas imperfeições.

Suzy (Startup) e Park Bo-gum (Se a Vida te Der Tangerinas) lideram uma das histórias centrais da narrativa. O enredo deles é muito triste: uma comissária de bordo convive com o namorado em um simulacro virtual para não se sentir sozinha, já que ele está em coma há anos, mas entra em curto quando Tae-ju (Park Bo-gum) acorda. Agora, Jeong-in (Bae Suzy) vive entre duas versões do namorado, a real e a virtual, dividida entre encerrar o contrato com a simulação ou manter as duas presenças.

Essa trama, no entanto, vai além do drama pessoal. Wonderland funciona como um grande espelho das relações contemporâneas mediadas por telas. A realidade virtual do filme é como um “feed” personalizado: sem silêncios constrangedores, sem respostas atravessadas, sempre disponível e reconfortante. Nela, não precisamos enfrentar a realidade, que é plástica.

Assim como Alice se perde em um mundo governado por regras próprias e personagens imprevisíveis, a protagonista do filme se vê imersa em uma realidade filtrada, onde tudo parece perfeito, mas nada tem substância real. Wonderland aqui é um “país das maravilhas” contemporâneo, digital e seguro, mas que nos afasta das dores inevitáveis da vida.

Ou seja, ao mesmo tempo em que ela está tentando enfrentar a realidade da sua vida, ela está pura e simplesmente fugindo dessa realidade e não processando a “perda”, ainda que temporária, do seu amor. Mas isso tem um preço.

O luto é uma resposta natural e profunda diante de uma perda significativa.

Quando “saudável”, transforma a dor em saudade. Segue doendo, mas cada vez de forma menos avassaladora. A pessoa começa a encontrar formas de integrar aquela ausência à própria vida, ressignificando memórias e rotinas.

Quando “complicado”, a dor segue paralisante por um longo período ou impede a pessoa de retomar atividades importantes, tornando-se incapacitante.

Independente da forma que o luto toma na vida de casa um de nós, nunca vai ser um processo linear nem com prazo fixo. É uma experiência complexa, que envolve dimensões emocionais, físicas, cognitivas e sociais, e que varia muito de pessoa para pessoa.

Mas há uma certeza: o luto precisa ser vivido.

Tapar o buraco de uma ausência com uma conversa virtual infinita é o mesmo que buscar conforto rolando um feed, vendo fotos antigas ou revisitando mensagens de alguém que já não está. Tal qual nas redes sociais, a versão virtual das pessoas é moldada pelo desejo, filtrada para evitar conflitos e emoções incômodas.

Mas as emoções não devem ser evitadas. Devem ser sentidas. Vividas.

No filme, a protagonista, dividida entre o contato imperfeito, mas vivo e imprevisível, e a simulação impecável, encarna um dilema da nossa era: preferimos muitas vezes a imagem editada de alguém no Instagram à complexidade dessa pessoa ao vivo.

O problema é que o próprio filme parece repetir esse comportamento, mantendo-se na superficialidade. Com uma narrativa supérflua, evita o mergulho emocional profundo que a premissa prometia e merecia, entregando histórias rápidas, fáceis de consumir e logo esquecidas, como stories que desaparecem em 24 horas.

Ainda que seja um filme de quase duas horas, a história permanece rasa e previsível, o que surpreende, considerado o longo tempo de produção. O desfecho é igualmente previsível, assim que o filme não consegue gerar identificação ou empatia real com seus personagens.

No fim, Wonderland não é sobre o futuro, mas sobre o presente. É o retrato de uma era que prefere versões controladas da vida, onde ninguém erra, ninguém muda, e o silêncio é substituído por notificações. Tal como Alice percebe, um mundo encantador nem sempre é um mundo verdadeiro.

O encanto de Wonderland é superficial: belo à vista, mas incapaz de substituir a complexidade, o erro, a imprevisibilidade e a beleza da vida real. Um mundo tão perfeito que não deixa espaço para o inesperado, e, por isso mesmo, está tão irremediavelmente vazio.


Informações básicas

Sobre: Em um futuro próximo, um experimento de realidade virtual permite que pessoas se conectem com entes queridos e amores perdidos. Entre encontros emocionantes e dilemas éticos, a tecnologia revela tanto a beleza quanto os riscos de recriar memórias e afetos.
Nome original: 원더랜드 (Wonderland)
Ano: 2023
Direção: Kim Tae-yong
Roteiro: Kim Tae-yong
Elenco Principal: Tang Wei, Bae Suzy, Park Bo-gum, Jung Yu-mi, Choi Woo-shik, Gong Yoo
Produção: Coréia do Sul
Gêneros: Drama, Ficção Científica, Romance
Link para o IMDB: https://www.imdb.com/title/tt26636702/ 

Imagens: Divulgação/ Netflix

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