A Conquista da Honra

Cartas de Iwo Jima / A Conquista da Honra

Uma trincheira para dois inimigos 

É impossível para qualquer historiador definir qual batalha foi a mais violenta da humanidade, pois, entre todas as guerras, são os critérios subjetivos que marcam os implicados na desnecessária violência que impõe a desumanização aos seus envolvidos. Há, sim, uma maior apreensão com relação à Segunda Grande Guerra e suas diversas tramas, as quais o cinema sempre busca recontar, algumas vezes o mais fielmente possível, dentro das realidades ficcionais, de forma a compreender os trajetos da humanidade.

São poucos, dessa forma, os cineastas que não tomam partido para narrar uma guerra. Levando em consideração, principalmente, que o cinema dificilmente consegue humanizar tiranos, como foi o caso de A Queda! As Últimas Horas de Hitler (2004), de Oliver Hirschbiegel, filme fortemente criticado por “civilizar” Adolf Hitler nas telas. Assim, quando dois filmes contam os diferentes lados de uma mesma história, mas de forma a preservar o mesmo olhar, é que se cria um dos raros momentos soberbos do cinema: o de vislumbrar que, independente de situação, sempre há, na guerra, os mesmos sentimentos por parte de todos, sejam aliados ou inimigos, os protagonistas e os antagonistas são resultado da percepção de quem dá voz à narrativa.

E é na direção de Clint Eastwood, portanto, que se compõem duas excelentes produções, interligadas pela mesma história: Cartas de Iwo Jima e A Conquista da Honra. Filmes que, sozinhos alternariam entre o mediano e o bom, mas, juntos, tornam-se indispensáveis. Ambos contam a invasão norte-americana à ilha de Iwo Jima, no Japão, durante a 2aG.G., com a diferença de que A Conquista da Honra foca o ponto de vista americano, enquanto Cartas de Iwo Jima traz o lado japonês do embate.

“Iwo Jima” significa “ilha de enxofre”, nome atribuído ao território por conta do solo vulcânico e da camada negra de cinzas que recobre o local. Ponto estratégico para que os Estados Unidos conseguissem criar bases militares que permitissem o avanço do país na Campanha do Pacífico, a ilha tornou-se palco de mais uma das diversas batalhas sangrentas do conflito. A ocupação do território pelos EUA durou até 1968, e talvez por isso a lembrança do sacrifício dos soldados que participaram do ataque e da defesa da ilha esteja tão viva na memória universal.

Seus dramas particulares, entretanto, nunca haviam sido desvendados e trazidos a público, e até mesmo a famosa foto de Joe Rosenthal – que, forjada ou não, imortalizou o momento em que os Estados Unidos subiram ao topo do Monte Suribachi, ao norte da ilha, implantando, lá, sua bandeira, cuja trajetória compõe o eixo narrativo de A Conquista da Honra – jamais tivera sua história tão bem destrinchada quanto no filme de Eastwood. Baseada no best seller de James Bradley e Ron Powers, Flags of Our Fathers (título original do filme), a película conta com produção de Steven Spielberg, que inclusive já detinha os direitos de adaptação do livro antes de Eastwood interessar-se por ele.

E interessou-se, inclusive, pela possibilidade de contar as duas histórias, humanizando, assim, seus protagonistas. É com uma linguagem uniforme, portanto, que Clint Eastwood realizou ambos os filmes. Houve uma preocupação intensa com o retrato da realidade, e uma pesquisa de conteúdo muito profunda, tanto para concepção de A Conquista da Honra quanto para Cartas de Iwo Jima. Além dos laboratórios aos quais os atores das duas equipes foram submetidos – em separado –, o diretor buscou apoio dos governos norte-americano e japonês e contatou diversos estudiosos da batalha para nortear a construção dos roteiros – que contaram com a poderosa colaboração de Paul Haggis (Crash, 2004). Para a composição do protagonista de Cartas de Iwo Jima, o general Tadamichi Kuribayashi (Ken Watanabe), por exemplo, Eastwood inspirou-se em diversos livros japoneses, incluindo um livro de cartas do próprio militar, Picture Letters From Commander In Chief.

Para compor a história, ambos os filmes trabalham com a subjetividade de recortes da época. A foto de Rosenthal, em A Conquista da Honra, é o ponto de partida para a história dos três sobreviventes que estavam na imagem, instituídos heróis pela plasticidade da cena, em uma estratégia de marketing para arrecadação de fundos do governo norte-americano. Mas que, após a êxtase, foram esquecidos, não mais tendo as prerrogativas e pessoas “notáveis”: Rene Gagnon (Jesse Bradford) tinha grandes projeções de futuro, mas mal conseguiu um emprego após a guerra; John “Doc” Bradley (Ryan Phillippe) deu continuidade à simplicidade de sua vida; e o índio Ira Hayes (Adam Beach) virou o herói esquecido, transformando-se em um objeto de diversão, uma alegoria da sociedade.

Já em Cartas de Iwo Jima, as cartas escritas pelos soldados, mas nunca enviadas aos seus familiares é que compõem a narrativa do filme, através da descrição de suas angústias como soldados prestes a morrer em defesa da pátria – mas muitos sem ter essa ambição, como o protagonista Saigo (Kazunari Ninomiya), um simples padeiro que deseja apenas voltar para a família. Além, é claro, da composição da figura do general Tadamichi Kuribayashi, um dos mais importantes personagens históricos do Japão. Nos dois filmes, portanto, fica expressa a diferença de classes que perpassa as questões da guerra. Ira Hayes é desprezado por ser índio, enquanto Saigo é desdenhado por não ser militar graduado ou um patriota disposto a morrer pelo imperador.

As linguagens dos dois projetos estão, assim, intrinsecamente ligadas. O mesmo olhar fotográfico, a mesma arte, a mesma estrutura de roteiro, que fazem os dois filmes se completarem, em uma espécie de plano e contra-plano intermitente, criando uma história dividida em momentos díspares de um mesmo acontecimento. As fotografias, inclusive, são resultados do trabalho de um mesmo diretor, Tom Stern, e em A Conquista da Honra chega a lembrar muito a composição imagética do filme de Spielberg, O Resgate do Soldado Ryan (1998), no qual a granulação, o pálido-desbotado e as cores “lavadas” dão a impressão de vidas que, aos poucos, desvanecem. Em Cartas de Iwo Jima, porém, o trabalho é muito melhor finalizado, até mesmo porque suas tomadas são naturalmente mais escuras, pois são situadas em cavernas e túneis.

Sem defesa de ideologias, mas apenas transformando o sofrimento daqueles soldados em dramas humanos, e não patrióticos, tanto A Conquista da Honra quanto Cartas de Iwo Jima escancaram a desumanidade da guerra, em contraponto à humanidade de quem a luta. Independentemente de nacionalidade, os combatentes eram cruéis ou bondosos até o limite da respectiva honra. Todos sentiam frio, dor, saudade, raiva e estavam ali para lutar por seu país, mas tudo o que queriam era sobreviver e poder retornar para casa, afinal, o herói está sempre do lado de quem conta a história.


Informações Básicas

Título: Cartas de Iwo Jima / A Conquista da Honra
Título Original: Letters from Iwo Jima / Flags of Our Fathers
Ano de Lançamento: 2006
Diretor: Clint Eastwood
Link para o IMDB: Cartas de Iwo Jima | A Conquista da Honra
Imagens: Divulgação Warner Bros

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