Café da Manhã em Plutão

Café da Manhã em Plutão

Um absurdo fantástico

Com poucos minutos de filme, já chamam a atenção os dois pequenos pássaros que filosofam nesta que é uma fábula psicodélica, na qual, dentro da história, nada parece real ao mesmo tempo em que nem tudo parece pertencer à pura imaginação, ou seja, uma mentira bem contada que faz com que o espectador realmente acredite no que está assistindo. E é através dessa forma sensível de fazer comédia que o diretor Neil Jordan cria, com Café da Manhã em Plutão, um fantástico mundo, absurdo e plausível, e, simultaneamente, encantador.

Em meio à Irlanda dos anos 70, está o desajustado Patrick Brady (Cillian Murphy), cuja vida vai além de uma grande seqüência de desventuras. Filho bastardo do Padre Bernard (Liam Neeson) com sua empregada, Eily Bergin (Eva Birthistle), o protagonista foi abandonado pela mãe, ainda bebê, na porta da igreja, sendo então repassado à adoção para Ma Braden (Ruth McCabe). Educado em um colégio de padres, ele é sempre visto como uma aberração, tanto por seus professores, que o criticam por seus textos, que fazem alusão ao sexo, à “libertinagem”; quanto por sua mãe de criação, que por diversas vezes o flagra vestido de mulher e maquiado. Perdido em um mundo de incompreensão, Patrick decide abandonar a cidade natal e partir para Londres em busca de sua mãe biológica. Lá, ele encontra amigos e vilões, e sua vida muda de forma irreparável.

E nessa narrativa de personagens singulares, dos padres às prostitutas, que formam uma composição fílmica um tanto quanto lúdica, é que se sobressai o protagonista Patrick – muito bem composto pelo versátil Cillian Murphy, que realiza um trabalho dedicado de voz e trejeitos, além de possuir feições um tanto quanto femininas quando ressaltadas pela maquiagem – e sua ingênua e tresloucada maestria da imaginação. Um personagem que denuncia a violência, a exploração sexual, as insanidades, mesmo sendo alheio a todos esses acontecimentos, através de sua fantasia, sua necessidade insana de enxergar o belo à sua volta e de viver um conto de fadas.

Impossível desvincular Café da Manhã em Plutão com a carreira de Jordan. Impregnada no diretor, a Irlanda de pequenos vilarejos, com suas tradições inquebráveis que permeiam os moradores e censuram a diferença são temas de diversos de seus filmes, mas especialmente do triste Nó na Garganta (1997). Com ele, a tradição irlandesa de contar histórias, na qual o diretor se enquadra perfeitamente, sobressai-se, conectando as duas produções. Em ambos, há muita imaginação e violência como recurso para uma fuga da realidade, bem como há infâncias transgredidas pela pressão e pela loucura que os irlandeses tanto ressaltam em seus filmes. Porém, Jordan, com suas histórias nem sempre alegres, que possibilitam aos protagonistas a criação de um mundo utópico e paralelo às incongruências do cotidiano, sabe lidar com o lado negro do humor.

Assim, em Café da Manhã em Plutão, que é baseado no livro homônimo de Patrick McCabe, a homossexualidade, a prostituição, e a violência, além de toda crueldade, humilhação, desespero, vingança, não deixam de acarretar juízos de valor. O filme é crítico, porém, como uma excelente comédia; sem explicitar, das grandes tragédias Patrick cria uma realidade cômica. Antológica, inclusive, pois nada mais engraçado do que assistir à cena em que Patrick descreve a forma como derrotou os terroristas do IRA usando justas roupas de couro e um perfume Channel no5. Aliado, está a perfeita trilha selecionada pelo diretor, que traz desde músicas disco a um singelo punk, tendo Childrens of the Revolution como tema do seu trailer. É certamente um filme lunático, mas excelente para os espectadores que precisam ver um pouco de idílio nas telas.


Informações Básicas

Título: Café da Manhã em Plutão
Título Original: Breakfast on Pluto
Ano de lançamento: 2005
Diretor: Neil Jordan
Elenco Principal: Cillian Murphy, Liam Neeson, Stephen Rea, Ruth Negga, Eva Birthistle
Imagem: Divulgação
Link para o IMDB: https://www.imdb.com/pt/title/tt0411195/


Trilha sonora da filme no Spotify

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