João Miguel e Peter Ketnath em Cinema, Aspirinas e Urubus

Cinema, Aspirinas e Urubus

Cinema de estrada e poesia

Cinema, Aspirinas e Urubus não é apenas um filme de estrada (road movie), mas também um belíssimo filme sobre sensibilidade e humanidade, uma exaltação aos personagens, centrada na busca e exploração dos sentimentos do indivíduo. Um filme que não procura retratar naquele momento uma nação, e sim apenas dois homens que se sentem deslocados dentro de um pequeno universo, e que buscam a felicidade cada qual à sua maneira. Dois personagens que procuram, um no outro, uma forma de acabar com a solidão, reunindo sonhos e frustrações, força de vontade e cansaço, cada qual com seu tempo para eclodir e esperar do outro nada mais que um gesto de amizade nesses sentimentos antagônicos.

Foi sobre esta base narrativa que o diretor Marcelo Gomes criou uma produção de qualidade técnica impecável. Apesar deste ser o seu primeiro longa, Cinema, Aspirinas e Urubus é um trabalho que demonstra um total controle do diretor com a linguagem e estética cinematográfica. Talvez muito se deva ao fato de que Gomes, além de ter sido cineclubista e, com isso, ter acesso a um cinema diverso, estudou cinema na Universidade de Bristol, na Inglaterra.

Dessa forma, é possível encontrar referências, mesmo que não propositais, ao cinema de estrada utilizado pelo iraniano Abbas Kiarostami – diretor de filmes como Dez (2002) e Gosto de Cereja (1997), que utilizaram estradas e carros amplamente como cenários; e ao Neorrealismo, através do uso de figurantes e de interpretações despretensiosas. Entretanto, Gomes tem um estilo próprio e criativo, o que torna o filme visual, sustentado nos excelentes silêncios e enquadramentos precisos, ressaltando a comunicação não- verbal realizada pelos personagens através dos sorrisos e olhares. Além disso, a câmera na mão, próxima dos atores, torna o espectador muito íntimo da ação.

Íntimo, inclusive, de personagens que são muito verossímeis: eles bebem, dormem com prostitutas, flertam com mulheres e gostam de contrariar opiniões opostas. Muito bem interpretados por João Miguel – um ator nordestino de teatro – e pelo alemão Peter Ketnath, os protagonistas não se tornam meros fantoches construídos aleatoriamente. Tudo é contido, cabe somente ao espectador a emoção. Mesmo nos momentos de maior cumplicidade entre os dois amigos, não há gesto físico, ou seja, não há um abraço, não há um toque, mas sobrevive uma amizade compreendida.

O argumento é muito simples: Johann, um caixeiro viajante que deixou a Alemanha antes do estourar da Segunda Guerra Mundial, vaga pelo interior do Brasil apresentando seu projeto em telas de cinema, e levando a solução “de todos os males” – a Aspirina – aos mais remotos rincões. No meio da estrada, conhece Ranulpho, um nordestino que cansou da vida na seca e decidiu retomar a vida no Rio de Janeiro. Juntos, eles passam a percorrer um caminho diferente daquele planejado, e escrevem uma bela trajetória de cumplicidade, carinho e amizade.

Além de uma excelente história, Cinema, Aspirinas e Urubus é amparado por uma técnica bem realizada e pensada. A fotografia, de Mauro Pinheiro Júnior, tem como objetivo ressaltar a luminosidade excessiva que existe durante o dia, com uma luz dura e estourada, e a ausência total dela durante a noite, guiada exatamente como se fossem somente lamparinas e velas que emitissem a luz. Assim, cria-se um ambiente sempre quente e muito íntimo e solitário. Para completar, a Direção de Arte demonstra uma concepção enxutíssima e bem trabalhada, de forma que todos os objetos trazidos dentro do caminhão – que pertencem ao personagem Johann – são melhores, mais vívidos e brilhosos do que os secos, empoeirados e gastos objetos usados pela população local.

Com uma montagem que não sufoca os personagens com a paisagem árida, mas também não resiste a torná-la também uma personagem, Cinema, Aspirinas e Urubus não deixa de ser um filme que ilustra o cotidiano dos indivíduos na busca pela liberdade, seja ela física ou, até mesmo, espiritual. Um filme que é genérico com suas questões sociais e políticas, mas ao mesmo tempo minimalista, que ressalta as peculiaridades e os sentimentos pessoais na incessante busca do prazer e da satisfação.

No final, o espectador sai do filme com a mesma sensação das fictícias plateias de dentro da história – ou nem tanto, pois muitos dos figurantes das pequenas cidades que assistiam às apresentações da Aspirina nunca tinham assistido uma sessão de cinema: encantamento. Encantamento por uma produção tão poética e prazerosa, mas que em nenhum momento deixa de ter a nossa bela geografia exposta em um filme de estrada. Encantamento por assistir ao real cinema-arte nas telas.


Informações Básicas

Título: Cinema, Aspirinas e Urubus
Ano de lançamento: 2005
Diretor: Marcelo Gomes
Elenco Principal: João Miguel, Peter Ketnath, Hermila Guedes
Link para o IMDB: https://www.imdb.com/pt/title/tt0373760

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